Apresentado no 9º Congresso Nacional do Confies, programa institui mecanismo compartilhado de investimento em empresas de base científico-tecnológica e negócios de impacto originados nas ICTs
A proposta de criação de um Programa Nacional de Investimento em Startups de Universidades e Centros de Pesquisa foi apresentada pela Fundação de Apoio da UFMG (Fundep) durante o início dos trabalhos do 9º Congresso do Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies), em Brasília, nesta quarta-feira (23).
Estruturada a partir da experiência da Fundep Participações S/A (Fundepar), gestora de investimentos da Fundação, a iniciativa pretende reunir fundações de apoio de diferentes regiões do País em um mecanismo capaz de financiar empresas inovadoras originadas nas Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs) nos estágios iniciais de desenvolvimento.
A proposta foi apresentada pelo presidente da Fundep, professor Jaime Arturo Ramírez, e pelo diretor-executivo da Fundepar, Carlos Lopes, como um convite à construção coletiva. A ideia é colocar a estrutura e a experiência acumuladas pela Fundepar à disposição de outras fundações, evitando que cada instituição precise criar individualmente uma gestora, formar equipe especializada e percorrer todos os processos jurídicos, regulatórios e operacionais necessários para realizar investimentos dessa natureza.
“O que estamos propondo é colocar uma experiência construída ao longo de 13 anos a serviço de uma ação coletiva. Em vez de cada fundação precisar criar, sozinha, toda uma estrutura para investir em startups, podemos compartilhar uma plataforma especializada, preservando a autonomia de cada instituição e sua relação com a ICT apoiada”, afirmou Jaime Ramírez.
Resposta a um desafio do sistema de C&T
A proposta parte de um desafio identificado no sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação: embora universidades e centros de pesquisa tenham ampliado a presença da inovação, do empreendedorismo e da transferência de tecnologia em suas estratégias institucionais, parte importante do conhecimento produzido ainda encontra dificuldades para avançar até sua aplicação na sociedade.
Esse obstáculo se torna particularmente evidente nas startups acadêmicas. Riscos tecnológicos, necessidade de validação científica e regulatória, ciclos longos de maturação e equipes altamente qualificadas tecnicamente, mas ainda em processo de desenvolvimento de competências empresariais, dificultam o acesso dessas empresas ao capital justamente em suas fases mais iniciais.
“As universidades brasileiras produzem ciência de qualidade e têm incorporado inovação e empreendedorismo às suas estratégias. O desafio é criar condições para que parte desse conhecimento consiga avançar até se transformar em tecnologia, produto, serviço ou negócio. É justamente nesse percurso, sobretudo nas etapas iniciais, que existe uma lacuna de financiamento que as fundações de apoio podem ajudar a enfrentar”, destacou Jaime.
Investir onde o risco ainda é maior
O programa terá como foco startups de base científico-tecnológica e negócios de impacto socioambiental originados em universidades e ICTs apoiadas. A previsão é atuar nos estágios pré-seed e seed, com atenção a empresas alinhadas a áreas consideradas estratégicas para o País, como saúde, bioeconomia, transformação digital, transição energética e defesa, além de iniciativas relacionadas à soberania tecnológica e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Nesses estágios as empresas ainda precisam demonstrar a viabilidade da tecnologia, realizar validações, testar seus modelos de negócio e construir condições para chegar ao mercado. Por apresentarem riscos mais elevados e ciclos de desenvolvimento mais longos, muitas delas têm dificuldade para captar investimentos privados.
Durante a apresentação, Carlos Lopes ressaltou que a intenção é atuar justamente nesse espaço. “A proposta é investir onde o risco ainda é alto e o capital privado tende a chegar menos. São empresas que precisam validar tecnologia, propriedade intelectual, modelo de negócio e mercado. O investimento precisa acompanhar essa trajetória por etapas, liberando novos recursos à medida que a empresa reduz riscos e alcança novos marcos de desenvolvimento”, explicou.
A lógica também orienta a maneira como cada investimento será planejado. De acordo com Lopes, não se trata de disponibilizar de uma só vez todo o recurso estimado para uma empresa, mas de construir um plano de desenvolvimento e realizar os aportes conforme o empreendimento cumpra etapas e reduza incertezas.


